Poemas – Grigório Rocha

Pálidos Mistérios

Folheando as páginas de um livro encontrado
Entre o mofo e a poeira d’um jardim misterioso
Encoberto pelo musgo, um trabalho primoroso
Explendidamente escrito e finamente ilustrado

Descobri mistérios duma profundidade alucinante
Que arrepiam a alma num tremor cabuloso
E cujos segredos nenhum iniciado ansioso
Deve revelar antes do amanhecer radiante

Triste sina de um cavaleiro errante
Neófito escravizado num sortilégio arrepiante
Na infindável noite deste volume empoeirado

Cada palavra lhe acentua uma febre delirante
O mistério ali encerrado proclama um aviso incessante:
“O poder em que se funda não deverá ser revelado!”.

A Bahia dos Gregórios

Olhe o céu dessa Bahia
E diga se não me diz
Se não há neste céu uma magia
Digna de uma aprendiz?

Se na Bahia a praça é do poeta
E o chão um dia foi de giz
Traçado e apagado o fiz
Pois a Bahia é uma curva, não uma reta
E longe dela não se pode ser feliz!

A terra de Gregórios e Grigórios
De Monique, Glauber e Gil
Não precisará de endinheirados Caetanos
Nem de baluartes lusitanos
Ou americanos cobiçando o Brasil.

A Bahia de régua e compasso
Da diversidade que a nós abunda
É igual à poesia que faço
Um esquadro sem marca e sem traço
Do nordeste donde o Brasil se funda.

Palavras são palavras

Ditas ao vento, coisas comuns, nada a dizer.
Armas ao vento, carregadas de ódio, sem nenhum prazer.
Como dizer, então, coisas simples, sem ofender?
Poderia eu então compreender,
Se um telefone mudo, batido na cara,
Deixa a impressão de um “nada a fazer”?
Um coração partido, lábio doído,
Sem compartilhar um “boa noite”, ou noite,
Um açoite, um tapa na cara, um ruído,
Sem comunicação aparente,
Estrutura ausente,
De repente, sem repente,
Poesia sem nexo, sem sexo,
Sem noite, sem entender,
Ou compreender o que fazer,
Pra entender, como viver
Assim vivendo, tentando
Deixar a lágrima
Escorrer,
Porque preciso
Continuar amando
Amar você.

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