Poemas- Carlos Conrado

Tóten do Autismo

Quando em mim o deserto se fez presente

A calmaria tornou meus sonhos eficazes.

O tempo gemendo por estar doente

Tornou-me piedoso com os ventos

Que bailavam com freios ausentes,

Perturbando com graça meus olhares.

Os sons nenhuma canção compunham,

Apenas enganavam os meus sentimentos

Arrastando-me para fora da realidade.

Fiz de mim um deus de sonhos tementes,

Criei mundos que não podiam ser habitados

Por nenhuma outra criatura

Que não fosse digna do meu chamado.

Convidei com prazer à Surrealidade

E nos tornamos fiéis e intensos amantes

A passear por espaços inacabados.

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Poemas- Silvério Duque

 

A balada de Inês

– Verás, amada minha
tuas mãos terminadas em segredo
sobre um peito de sopros findos
e então sentirás dentro de ti uma completude
como as folhas que, mortas
deixam nua aquela essência de vida
que as árvores nos trazem sobre os galhos
secos e escuros, como a carne que à terra volta
pois é da terra a carne, como do vento
a nuvem e sua possível imagem.

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Poemas- Ana Paula Fanon

SER  POETA

Sou um  louco
Sou  um  louco que  ronda  a  cidade

Sou um louco possuído de sensibilidade

Sou um caçador  cotidiano

Caço vida e  transformo-a em sentimento

 Sou um pássaro

Vôo ôo

Vôo entre as nuvens da liberdade

Sou um pássaro

Vôo ôo

Vôo alto e volto  para  o ninho  da leveza

 Sou metafórico

Sou  metafísico

Sou  clássico

Urbano

Suburbano

Sou mundano

 Sou tempo

Sou vento

Vulcão de expressividade

 Sou eu

Ser imperfeito

Sou um desvairado

Sou a solidão na multidão

Sou a alegria na tristeza

Sou inlusão

Sou paixão

Sou sem  fronteiras

Toco as palavras

Sinto a brisa   do verso

Vejo o invisível

Ouço a canção do silêncio

Transpiro arte

Sou Soul

Sou Som

Sou Sol

Sou ser  sedento

Reflexivo

Enlouquecido no meio  dos homens

Sou eu  um louco

Racionalizo

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Poemas Pinho Sannasc

Câncer Social
Sou o retrato humano das mazelas da sociedade
Eu sou o muro pixado que não aparece no postal
Parte do daquilo que embaixo do tapete não cabe
Pois eu sou sujo, eu sou feio e  sou anti social…
Sou a sujeira que notas no teu espelho retrovisor
Enquanto depressa passas eu sequer sou notado
Cato lixo, cato lata e quem não cata sente pavor
Jogo malabares no sinal pra ganhar algum trocado
Eu peço, pricipalmente quando me aperta a fome
Na hora das refeições na porta dos restaurantes
Consumo o crack enquanto o crack me consome
Sinto-me ligado, somos cumplices, dois amantes
Eu sou o tumor crônico de uma sociedade terminal
Eu sou a ferida putrefata, sou a verdade  nua e crua
Eu sou simplesmenteo lodo, mais um câncer social
Sou a própria miséria, sou apenas um menino de rua

Queria poder querer-te
Ai como eu queria poder quere-te
Mas eu não posso
Não posso ao menos um flerte
Nem mesmo um beijo vosso
Ai como eu queria poder querer-te
Queria de um jeito que dói
De um jeito que me corrói
Com o calor e o fulgor de mil sóis
Queria, e bramir em alta voz.
Queria te ver como dantes
Sem o remorso que é deletério
Mas une nos laços de sangue
Com o agravo de ser adultério

Saudade das Lavadeiras
A saudade eu sinto é das lavadeiras
À beira dos rios, lavando as anáguas
Enquanto era a mão dessas guerreiras
Faltava o progresso, mas sobrava água
E agora o homem à própria vontade
Muda o curso do rio, faz transposição
Das lavadeiras é que sinto saudades
Pois só levavam um balde nas mãos
Até os peixes sentem as água mudadas
E os homens alegam que estão tratando
O rio coitado, que não pode dizer nada
Volve-se em chuvas e segue lacrimando
Temo que aquela gota seja a derradeira
Do liquido insípido que todos consomem
Capaz de lavar as roupas das lavadeiras
E incapaz de lavar o coração do homem

Senhora
Queria, mulher
Sentir da tua pele o calor,
Queria também que quisesses
Compartilhar comigo os teus sentimentos.
Por favor, não te ofendas
Se te chamo de mulher
Com muito respeito a amo.
Escuta menina, moça, mulher, senhora
Como queria eu, realmente queria,
Ser o colibri ou o pégaso,
Que sem pudores e sem vergonhas
Repousam no suor do teu corpo
E se ainda não estivesse saciado
Queria também poder beijá-la.
Desculpe-me senhora,
Talvez seja cândida,
Talvez matrona
Ou simplesmente não queira ser amada,
Mas devo insistir em almejá-la.
Posso não conhecer as tuas desilusões
No entanto desejo veementemente
Alegrar-me do teu sorriso,
Segurar-te pelas mãos,
Afagar os teus cabelos,
Talvez um beijo,
Tudo isso por que desejei
Escrever para ti um poema
Um simples poema,
Senhora

Síndrome da homofobia
Os sintomas são diversos
Principia pela negação
E o descontrole emocional
Que torna o ser perverso
E resulta em agressão
Incitada por um ódio mortal
Nega o direito de outrem
Julga-se superior
Na verdade é um doente
Que alega sentir pavor
E critica severamente
Culmina com a intolerância
Que pode tirar uma vida
Meramente por preconceito
Meu Deus, tamanha é a ignorância
Que até pode criar homicidas
Que acreditam serem perfeitos
A síndrome da homofobia
É reflexo da aversão
De alguém que diz “não aceito”
É um cálice de hipocrisia
Que confunde a não aceitação
Com o direito do outro ao respeito